Minha irmã quer morrer.
Morrer para ver o que vai me acontecer,
o que vão fazer comigo, pra quem vou sobrar,
como vou viver,
quanto vou sofrer?
Pois acha que vivo bem as custas dela, sou uma rainha só deitada, não faço nada, não me desgasto não varro uma casa, não lavo louça, roupa, não ajudo ninguém. Sim, respondi, só sinto única coisa que eu posso fazer.
Então pra ela é melhor, morrer.
Minha irmã está com raiva que eu como de tudo, bebo de tudo, igual uma lontra e ela que precisa de forças e saúde pra cuidar de mim, se acabar com minha mãe, diz sempre foi eu que acabei com minha mãe e agora com ela.
Sou muito abusada, a deficiente mais folgada que ela já viu, todos a minha volta sofrem por minha causa, sou uma sobrevivente, tenho que dar graças o que ela faz por mim, tenho tudo de bom, internet, computador, comida, desde que minha mãe morreu nunca fiquei sem cuidados, quando ela não gosta de alguém, se afasta, não quer nem ver a pessoa, mas eu ela é obrigada falar, ver e cuidar, se pudesse estaria longe de mim, bem faz meu irmão ficar longe e protegido do meu mal, do mal que eu causo aos outros. Eu roguei praga nele por deixar de me ajudar com R$ 200,00, desde Janeiro, ainda bem que eu nunca fui lá levar meu azar, ops, ela foi e ficou com raiva ao ouvir isso.
Disse não importa como ela me trata mas sim o que ela faz e não deixa de fazer, se não me der o que comer ou beber ninguém dá. Todos que me ajudavam, vinham aqui, sumiram, é o que ela faria se pudesse.
Desde de 1984 eu prejudico a vida dela, quase perdeu o Robson por ficar comigo no hospital.
Disse se seguisse nossas ideia não teria se casado nem tido a filha, e quem nos ajudaria hoje, o ex marido dela.
Se ela morrer estou fodida, pois ninguém quer ficar comigo pra ela ir ao médico, imagina pra cuidar.
Mas a morte não tem livros, comida, cachorros ou feriados. A vida não tem descanso, mas a morte não tem um despertador desligado. A morte não tem música alta, festa surpresa, abraços demorados, dinheiro encontrado no fundo do bolso, nota alta na prova, beijo na boca, poesia, banho de chuva, azulejo frio, ursos de pelúcia discretos, colo de mãe. A morte não tem férias, e a vida também não. Quase é injusto. A vida não tem paz e a morte não tem tristeza, ressentimento, descaso, síndrome da invisibilidade, raiva, fome, preocupação, vestibular, chefes, tédio, contas, solidão, impotência, baixa auto-estima, invalidez, culpa, desespero, agonia, abandono, saudade e silêncio. A morte não tem arrependimento, mesmo se for forçada a acontecer. E aí, quando cansarmos do contrato e nosso saldo de coisas boas não der conta de segurar uma depressão sozinho, a gente não vai mais estar vivo pra sentir alívio. Viver é desvantagem demais. E morrer só comprova isto.
